Estou comendo o pão..
aquele mesmo, que o diabo amassou..
Comendo a contra gosto,
empurrando goela abaixo..
Engolindo a seco esse pão velho..
E o diabo que amassou o pão,
eu enxergo logo ali no espelho..
Olhos de um imbecil completo,
me fitam e zombam do que resta de mim..
Nem chegam a ter pena, alias, vão além da pena..
Zombam, ridicularizam, humilham, pisam e amassam..
E depois de toda coisa feita,
entenda-se:
E depois de toda bosta feita..
Só me resta comer esse pão amassado.
Seco, com gosto amargo e podre..
Dá vontade de vomitar tudo, de recusar,
de devolver tudo ao mundo exterior, exterior do meu corpo,
vontade de vomitar e assim talvez conseguisse me livrar do gosto ruim..
Esse gosto que eu mesmo temperei,
eu mesmo comprei os temperos e preparei..
Agora fico aqui enjoado e enojado com essa mistura detestável.
Me sinto o cúmulo do ridículo,
o erro encima do erro,
a falha fatal,
a pior coisa ou pessoa desse mundo, porque eu erro por mimo. Erro por ser um menino mimado egoísta e chorão. Odiável olhar pra mim mesmo. Me falta respeito e dignidade. E eu tenho que engolir isso tudo, esse pão.
A noite cai e as verdades vão surgindo.
A solidão, os amores, as saudades, os erros, a dor.
A verdade brota aqui a cada minuto que passa.
Me vejo o merda que eu sou.
Perdi minha princesa por total falta de autocontrole. Falta de noção.
E não é a primeira vez que isso acontece..
Agora tenho que aturar aquela motocicleta azul dos infernos estacionada ali embaixo.
Tenho que aguentar os minutos passando e essa faca entrando em meu peito.
Dor de corno? Talvez também, mas bem pior que isso é a dor do arrependimento.
A dor do homem burro.
E é tão ruim me sentir incapaz quanto a isso.
Ninguem pode deixar de ser burro apenas por força da vontade.
A vida dói.
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